domingo, 15 de janeiro de 2017

Lido: A Frio

Está um tipo sossegadamente a ler, no seu casarão, enquanto lá fora o mundo se desfaz em chuva, quando lhe vem bater à porta um miúdo, ensopado que nem um pinto, e assustado porque estaria a ser perseguido. O que faz o tipo? Bem, vocês não sei o que fariam, mas o dono deste casarão em concreto, o protagonista de A Frio, já parece ter o esquema todo montado.

É um conto curioso, este. Mas não passa disso. Ricardo Lopes Moura deixa uma ou duas pontas demasiado soltas na sua narrativa e faz uso muito pouco irónico (isto é, com muito pouca consciência aparente de que está a usar clichés) de alguns clichés para que eu consiga achar o conto bom.

O pior é que sem esses clichés o truque que usa para desviar as atenções do que se estava ali a passar resultaria em pleno. Sem tantas referências ao imaginário do terror, o leitor acreditaria na generosidade do dono da casa quando deixa o miúdo sair da chuva e obter refúgio de um qualquer perigo iminente. Mas com elas, a sensação de que há qualquer coisa que não está bem e a suspeita, quase imediata, de qual é a coisa que não está bem, surge demasiado depressa. E assim, a leitura acaba com um "ora bolas" de oportunidade perdida.

Ora bolas.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Lido: Não é o que Ignoras o Motivo da tua Queda mas o que Pensas Saber

Um dos subgéneros mais comuns na ficção científica internacional, e talvez aquele que é mais maltratado por escritores que não conhecem o suficiente do género para evitar cair em todos os seus muitos clichés, é a FC mais ou menos ufológica, centrada em visitas ou invasões de criaturas extraterrestres. Não por acaso: A Guerra dos Mundos de Wells é dos tais livros que toda a gente acaba mais tarde ou mais cedo por ler, e há abundância de material audiovisual construído à volta do mesmo tema, já para não falar de todo o History Channel e da muita divulgação que tem há largas décadas a pseudociência ufológica.

Não é o que Ignoras o Motivo da tua Queda mas o que Pensas Saber (bibliografia), o mais verborraico título que Luís Filipe Silva publicou até hoje, insere-se nessa tradição. O cenário faz lembrar um pouco o do filme Independence Day: objetos, provavelmente naves, aparecem nos céus da Terra e depressa começam a causar problemas. As semelhanças, felizmente, terminam aí. O que se segue é uma história que tem mais a ver com a noção de incompreensibilidade da inteligência alienígena, muito comum em Lem, e a muito citada frase de Clarke sobre a tecnologia suficientemente avançada ser indistinguível da magia, do que com o cliché habitual deste tipo de história. Além disso, trata-se de um conto bem escrito, não só no que toca simplesmente ao uso da língua, como, até certo ponto, na construção do protagonista e de algumas das outras personagens, mas também, ou talvez sobretudo, em certos detalhes estruturais que são fundamentais para sustentar o interesse do leitor até ao fim, pequenas frases ou fragmentos de frases que vão sucessivamente entreabrindo portinholas para o futuro narrativo, fornecendo vislumbres do que aí vem e voltando a fechar-se imediatamente a seguir. De bónus, um final que, apesar de todos estes vislumbres, consegue ainda surpreender.

Como consequência, esta é de caras a melhor história desta curta antologia. Uma noveleta realmente boa, para variar.

Contos anteriores deste livro:

Lido: The Heisenberg Mutation and Other Transfigurations

Esquece-se com demasiada frequência que, lado a lado com a literatura comercial (e não me refiro aqui à que é vulgarmente conhecida desta forma, a literatura formulaica destinada a vender muito, mas sim à literatura que é comercializada através dos circuitos da edição profissional) existe, sempre existiu e provavelmente sempre existirá uma outra, uma espécie de irmão pobrezinho da primeira, que sobrevive de edições pequeninas, de edições amadoras, de autoedições e de edições pagas do bolso dos próprios autores. E que embora seja verdade que a qualidade média é superior na primeira que na segunda, não é menos verdade que na primeira encontramos também material inenarravelmente mau, ao passo que na segunda também existem algumas pérolas de considerável calibre.

The Heisenberg Mutation and Other Transfigurations é um cadernito de 36 páginas, publicado não se sabe quando por uma microeditora de certeza amadora chamada D-Press, escrito por Steve Redwood e ilustrado por Carole Humphreys, e pertence sem qualquer máscara ou simulação ao segundo grupo, mesmo que o objetivo tenha sido, como parece que foi, mais fazer uma ediçãozinha de alguns contos para divulgar gratuitamente junto de eventuais interessados, ligados de uma ou de outra forma ao mundo da edição, do que fazer com que esta edição valesse por si mesma. Mas seja qual for o objetivo, o facto é que este é um bom livrinho, claramente melhor do que muitos dos livros publicados profissionalmente que li no ano passado.

Os seus quatro contos, que oscilam entre a ficção científica soft e uma weird fiction absurdista e surreal, são todos textos bastante interessantes, razoavelmente bem servidos pelas ilustrações de Humphreys e, embora não se possa dizer que o conjunto supera a soma das partes, estas são boas o suficiente para ter sido um prazer ler este livro.

E já que se fala das partes, eis o que achei delas:
Este livro foi-me oferecido pelo autor e passou demasiados anos na pilha dos livros a ler um dia.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Lido: A Saga de Alex 9

De vez em quando aparecem no rarefeito panorama da literatura fantástica produzida em Portugal umas edições invulgares. A Saga de Alex 9 (bibliografia) é uma dessas edições, e por vários motivos.

É invulgar, em primeiro lugar, por se tratar de um tipo de edição que só muito raramente acontece por cá: aquilo a que no mundo anglófono se dá o nome de omnibus, uma compilação, completa ou não, dos romances que compõem uma série, quase sempre após terem sido publicados isoladamente. Além deste livro, que me lembre, só a duologia Galxmente de Luís Filipe Silva recebeu recentemente idêntico tratamento, e neste caso tratou-se de uma obra inicialmente pensada como romance unitário que, com a edição em volume único, terá recuperado a estrutura original. Parece claro que, pelo contrário, Bruno Martins Soares pensou a sua obra como trilogia e dois dos três romances saíram autonomamente, assinados sob o pseudónimo anglófono de Martin S. Braun.

É invulgar, em segundo lugar, porque mistura de uma forma também muito pouco comum entre nós a fantasia e a ficção científica. Não pela mistura em si — ela existe em vários exemplares da ficção fantástica portuguesa, de Tércio a Macedo e até, por vezes, ao próprio Barreiros, ainda que aqui se encontre mais horror do que propriamente fantasia — mas pelos ingredientes postos na mistura: fantasia épica e space opera. Não me consigo lembrar de nenhum outro exemplo que tenha lido.

É também invulgar pela dimensão. Na ficção científica portuguesa, só o Terrarium da dupla Barreiros-Silva e, mais recentemente, o já referido Galxmente, atingem dimensões próximas das 600 páginas.

E é invulgar, enfim, por se inserir numa corrente pulp que tem muito poucos cultores em Portugal, e os que tem muitas vezes dão a impressão de não conhecerem o suficiente do género para o explorarem bem. Não é o caso de Soares.

Este cria uma história complexa, fundada num fascínio evidente pelas artes marciais japonesas, pela estratégia militar e pela forma pulp de contar histórias, suspeito que mais influenciada por formas não literárias de contar histórias (cinema, anime, BD) do que propriamente pela literatura, e na qual se mistura num todo nem sempre harmonioso um futuro de space opera com claros elementos cyberpunk e um passado com muito de medieval, ainda que em mundo secundário. O fulcro, como é de norma nas coisas pulp, é posto na ação, ainda que vá sendo dada mais atenção a outros elementos com o decorrer da história. A abordagem é declaradamente juvenil; não por acaso os dois romances que tiveram edição autónoma saíram numa coleção chamada TEEN.

Bastam muitas destas coisas para transformar esta obra num livro importante no contexto da FC portuguesa. Mas isso não quer dizer que seja um livro sem problemas.

Para começar, há o problema do primeiro romance. É pena que a reedição dos três livros em um só não tenha sido aproveitada para uma revisão aprofundada do primeiro romance, cuja qualidade geral fica bastante abaixo da dos outros dois. Depois, há o problema das pontas soltas que ainda ficam soltas ao concluir-se a leitura, apesar da tentativa de as amarrar, no fim, com um grande infodump em forma de epílogo. E depois há problemas que decorrem da abordagem pulp e talvez fosse difícil evitar mantendo essa abordagem. O maior desses problemas é a previsibilidade.

Uma das grandes qualidades que tem George R. R. Martin é ter compreendido que uma história de ação em que os heróis estão identificados desde o início e têm por isso a sobrevivência assegurada até ao fim é uma história amputada. Que o impacto emocional que os perigos e problemas por que passam causam no leitor é significativamente reduzido quando este sabe à partida que nada de realmente sério vai acabar por lhes acontecer. Mas nas histórias pulp, o herói é o herói e no fim vence, ficando com a heroína e vivendo com ela feliz para sempre. O desfecho está definido de antemão e assim a leitura acaba por ganhar um caráter significativo de ruminação. Ora, apesar do que a editora resolveu pôr na capa deste livro, Bruno Martins Soares decididamente não é "o George R. R. Martin português". À parte o mérito de trocar o género à estrutura pulp típica, usando uma heroína em vez de um herói, tudo o resto é como vem na receita.

E este é, para mim que não gosto de pulp, o grande pecado original deste livro. Mais do que as fragilidades de escrita, mais do que as pontas soltas, mais que o infodump, foi sobretudo isto que não me permitiu usufruir a leitura de forma plena. E foi por isso que, tendo acabado por gostar do livro, e apesar de, como digo acima, o achar importante, não gostei muito.

Para mais detalhes sobre os três romances considerados individualmente, seguir os respetivos links:
Este livro foi comprado.

Lido: Ícaro Montgolfier Wright

Outra faceta na obra de Ray Bradbury, menos numerosa mas que também inclui várias histórias, são as homenagens a heróis pessoais, sejam estes literários, científicos ou exploradores. Ícaro Montgolfier Wright (bibliografia) insere-se nessa faceta, como de resto o próprio título já indica. Trata-se de um conto curto muito poético, praticamente um poema em prosa, muito onírico, desprovido daquilo a que propriamente se possa chamar uma história, que presta homenagem aos três grandes sonhadores e pioneiros do voo referenciados no título e, por seu intermédio, a todos os outros, e faz a ligação aos pioneiros futuros, pois ainda o eram na época em que o conto foi escrito, do voo espacial.

Este é daqueles contos que irá agradar sobretudo a quem é mais sensível à forma literária, pois é nisso que é mais forte. Aqueles que prefiram conteúdo, e sobretudo os que, entre eles, tenham pouca paciência para onirismos poéticos, mais que provavelmente não gostarão, a menos que a homenagem, muito explícita, os consiga sensibilizar. Quanto a mim, gostei. Não muito, sobretudo quando comparo este conto com o melhor que Bradbury fez nos anos 40-50 do século passado, mas gostei.

Contos anteriores deste livro:

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Lido: A Máquina Voadora

Com A Máquina Voadora (bibliografia), Ray Bradbury leva-nos a um passado já bastante distante, ao ano de 400 AEC, e à China. Mais especificamente, a um momento concreto em que pela primeira vez um homem teria conseguido voar, amarrado a um papagaio de papel. A história que conta é a do que acontece depois a esse homem, quando o seu feito chega ao conhecimento do imperador, e trata-se de mais um dos muitos contos bradburianos em que o tema é a inovação tecnológica e a responsabilidade que ela acarreta.

Trata-se, portanto, de uma abordagem diferente para um tema bastante habitual no autor americano, num conto curto que se pode enquadrar, com boa vontade, na ficção fantástica ou até, com mais boa vontade ainda, na ficção científica, mas é sobretudo filosófico. Por vezes Bradbury parece tecnofóbico, parece — por paradoxal que isso seja num escritor de ficção científica — aconchegar-se a uma noção nostálgica de um passado mítico de infância em que tudo era puro e ainda não tinha sido corrompido pela crueldade da Máquina... ou pelo menos de uma Máquina mais sofisticada do que as que já eram conhecidas nesse passado. Mas neste conto curto transparece aquilo que deverá ser o verdadeiro núcleo dessa aparência de tecnofobia, a ideia de que a tecnologia é uma ferramenta, que pode ser bela, é certo, mas tem um imenso potencial para, nas mãos de gente má, se tornar devastadora.

O conto, esse, é bastante bom. Tão bem escrito como é habitual e com um sumo invulgarmente denso para história tão curta. E, sim, mantém-se muitíssimo atual.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Prosa

Todos os leitores são diferentes. Cada um procura nos livros a satisfação de um conjunto muito próprio de necessidades ou apetites e é em boa parte daí que vem a variedade de públicos que a literatura serve. Raramente é possível reduzir esse conjunto a uma ou duas coisas, ainda que haja sempre algo que predomina. No meu caso, o predomínio cabe ao gosto de aprender, ao gosto pelo poder da imaginação e ao gosto por uma boa história, servida pela prosa que seja mais adequada a essa história em concreto.

Quando acabei de ler este Prosa, de Mário de Sá-Carneiro, parte de uma edição dupla que reúne em dois volumosos volumes a obra completa deste célebre poeta do início do século passado, fiquei a pensar nestas questões. Porque se por um lado já antes tinha lido algumas coisas de Sá-Carneiro com um prazer significativamente menor do que o que tive ao lê-las agora, por outro, e apesar do dito acima, há entre a grande qualidade literária da maioria destes textos e o gosto que a sua leitura me causou um considerável fosso.

A questão, acabei por concluir, é a prosa de Sá-Carneiro pouco me ensinar, amarrada como está a uma conceção hiperromântica do mundo e da vida que nada me diz. Que, para ser brutalmente honesto, me parece até bastante ridícula, o que o narcisismo ora implícito ora explícito na maioria dos contos só piora. Para alguns leitores imagino que baste a literatura para ultrapassarem repulsas semelhantes pelas ideias e filosofia de base dos textos, mas para mim não basta. Mesmo pertencendo a grande maioria destas histórias à grande família da literatura fantástica sensu latu, que é aquela que costumo preferir.

Por outro lado, esta espécie de edição, em que se reúne num só volume a obra completa, todos os contos, novelas e romances, conjugada com a natureza idiossincrática da grande maioria dos textos, permite outra espécie de aprendizagem. Permite compreender bastante bem o autor e os motivos por que escrevia o que e como escrevia. E é por isso, parece-me agora, que a leitura destas histórias, aqui, me agradou significativamente mais do que quando li as que li dispersas. Esse foi o ensinamento mais relevante que retirei desta experiência: alguns autores só se compreendem verdadeiramente quando se lê tudo o que escreveram. Ou pelo menos tudo o que escreveram dentro de certos limites, mais ou menos latos, de técnica e/ou género literários (afinal, aqui só se encontra a prosa).

Daí que o veredicto final que a edição me deixa seja francamente positivo.

Quanto ao que achei individualmente das várias histórias, aqui vai a lista completa, dividida nas partes em que se divide o livro, as quais, à exceção da primeira, correspondem aos livros de prosa que Sá-Carneiro fez publicar:
Este livro pertence à biblioteca dos meus pais.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Lido: O Bonde

Quando a tecnologia evolui, há inevitavelmente um elemento de nostalgia no que é deixado para trás. Ray Bradbury deu muitas vezes voz a essa nostalgia, pondo frequentemente em contraponto uma imagem idílica dos usos, costumes e aparelhos da infância com o caráter frio e impessoal que via na modernidade ou pós modernidade, presente ou futura. Trata-se, naturalmente, de uma ideia conservadora por natureza: nem o mítico outrora teve alguma coisa de idílico, nem o presente (ou o futuro) é despido da sua própria poesia.

O Bonde (bibliografia) é um conto curto de uma fantasia quase mainstream que se insere nessa vertente da obra bradburiana. O enredo centra-se numa última viagem feita por um grupo de miúdos no elétrico (ou bonde, nesta edição brasileira) que costumava levá-los para a escola e vai fechar para ser substituído por autocarros. É um conto bonito, muito bem escrito, com as imagens poéticas certas nos sítios certos e uma dose muito ligeira de fantasmagoria a acentuar-lhe o sabor. Mas não é um grande conto. É bom: bonito, simpático e nostálgico, mas está longe de atingir o patamar do inesquecível.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Lido: Eles Eram Morenos, e de Olhos Dourados

Em finais dos anos 40 e inícios dos 50, Ray Bradbury visitou muitas vezes Marte. Parte dos contos que escreveu sobre o nosso vizinho cósmico acabaram mais tarde por ser incluídos num dos seus melhores livros, As Crónicas Marcianas, mas outros não o foram, apesar de partilharem com aqueles boa parte dos ambientes e preocupações. É o caso de Eles Eram Morenos, e de Olhos Dourados (bibliografia), conto que partilha com uma das histórias das Crónicas Marcianas não só o título original (um deles, pelo menos; este conto foi publicado em inglês sob três títulos diferentes) como parte da ideia. E outras partes da ideia também estão presentes nas Crónicas, em outros contos.

Trata-se da história de uma família de colonos terrestres em Marte, dos primeiros a chegar. O Marte a que chegam é o Marte bradburiano, com mais a ver com as fantasias originadas pelos canalli de Schiparelli e de Lowell do que com o planeta verdadeiro que a exploração científica vem desvendando desde o dealbar da idade espacial. Um planeta seco, mas coberto por grandes obras de engenharia que procuram aproveitar a pouca água que resta. Um planeta morto, mas no qual ainda se podem encontrar e explorar não só os canais, mas cidades inteiras, testemunhas de uma civilização desaparecida. Um planeta pronto para ser colonizado por homens, mulheres e crianças vindos da Terra; uma nova fronteira.

Mas chegados ao planeta, e tal como acontece nas Crónicas Marcianas, os colonos veem-se confrontados com uma guerra devastadora no planeta natal, uma guerra nuclear. Não revelo o que acontece de seguida, mas quem leu as Crónicas Marcianas facilmente adivinha pois, embora neste conto não aconteça exatamente o mesmo é bastante parecido. Digo apenas que o planeta acaba por reclamar o que lhe pertence.

É um conto muito bom, este. Uma antevisão do que viriam a ser as Crónicas Marcianas (o conto é de 1949, o livro de 1950), talvez uma fusão num conto só de várias das histórias que formam o livro, o qual inclui histórias publicadas pela primeira vez entre 1945 e 1950, talvez as duas coisas ao mesmo tempo. O livro é melhor, porque está mais completo, é mais complexo e inclui algumas absolutas obras-primas do conto de ficção científica, mas este conto não lhe fica muito atrás.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Pequenos Terremotos

Uma das qualidades que teve a Ficções foi abrir as portas a primeiras publicações, mesmo que estas por vezes não correspondam em qualidade ao resto dos contos do número da revista em que se integram. É, em parte, o caso de Pequenos Terremotos, um pequeno conto fantástico do brasileiro André Ricardo Aguiar, que conta, resumidamente, a história de uma casa que é constantemente abalada por pequenos terremotos (embora talvez fosse mais adequado chamar-lhes "casamotos"). É um conto com a sua ironia e a sua dose de surrealismo, bem escrito, ainda que me pareça que a ideia poderia ter sido explorada de uma forma mais intensa e que talvez ficasse melhor assim. É daquelas histórias que beneficiam com a extravagância. O final, apesar de surpreendente, tampouco me pareceu inteiramente satisfatório, porque deixa no ar uma certa sensação de ter caído do céu aos trambolhões. No entanto, apesar destas notas menos favoráveis, não se trata de um mau conto e esteve longe de ser o conto de que menos gostei nesta revista. É um conto curioso.

Contos anteriores desta publicação:

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Lido: O Sorriso

Que sentimentos terão pelo passado os sobreviventes (ou os descendentes dos sobreviventes) de um cataclismo provocado pela espécie humana? Em mundos pós-apocalípticos desse género, o que farão essas pessoas daquilo que restou de um passado que se autodestruiu e lhes condicionou assim as vidas? E se esses restos do passado forem arte — a melhor arte — isso mudaria alguma coisa?

O Sorriso (bibliografia) é um desencantado conto curto, ambientado em 2061 (ou talvez não), em que Ray Bradbury reflete precisamente sobre essas questões. E as respostas que nos dá não são confortáveis. Datado de 1952, é mais um conto do pós-guerra, muito marcado pela destruição generalizada que tinha tido lugar poucos anos antes e por um grande ceticismo quanto à capacidade humana de conservar a civilização e o que esta nos traz. A história conta-se em duas linhas: um quadro famoso chega a uma cidadezinha para uma espécie de auto-de-fé, que todos acolhem bem à exceção de um rapaz que se deixa impressionar pela sua beleza. E age.

É um conto forte, de uma ficção científica que se mantém assustadoramente atual. Para ser um dos grandes contos de Bradbury falta-lhe apenas, creio, um desenvolvimento mais profundo. Mas é um bom conto.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Reconversão de Excedentes

Por esta altura, imagino, ao verem esta imagem aqui ao lado, e se acompanham o que vai sendo escrito aqui para a Lâmpada, já deverão estar à espera do que se segue. Com Reconversão de Excedentes (bibliografia), Telmo Marçal volta aos seus ambientes típicos, aos seus mundos miseráveis e sobrepovoados, aos seus futuros de absoluta distopia, contando desta feita a história da ascensão de um jovem recém graduado que tem a duvidosa sorte de obter emprego como operador de uma central automática de tratamento de resíduos.

Trata-se de um conto com múltiplos pontos de contacto com contos anteriores deste livro. De facto, a páginas tantas durante a leitura ocorreu-me a interrogação sobre se Marçal terá alguma vez pensado em construir com estas histórias uma série ambientada num universo ficcional coerente. Não foi a primeira vez que esta dúvida me veio à mente, mas foi aquela que resultou em mais reflexão — até porque o livro se aproxima do fim. É que, embora nem todas as histórias pareçam poder ambientar-se no mesmo universo ficcional (há algumas diferenças até no planeta que serve de cenário), cerca de metade mostra uma identidade tão grande de ambientes que facilmente poderiam ser vistas como partes de um todo mais vasto.

Voltando a este conto, ele relata a ascensão do jovem trabalhador, como ficou dito, concentrando-se nas relações entre este e a gigantesca maquinaria, por um lado, e, pelo outro, com o supervisor da central, um velho intratável e abusador cujo mau génio é exacerbado por se julgar na iminência de ser substituído pelo jovem aprendiz, com tudo o que isso, numa sociedade daquelas, implica. É mais um bom conto, que só peca verdadeiramente por se tornar um pouco previsível.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Leituras de 2016

Acabo 2016, mais uma vez, com uma enorme pilha de opiniões por escrever e publicar. Uma das resoluções de ano novo é ser este o último ano que acaba desta forma... mas a gente sabe como são as resoluções de ano novo, não sabe? Portanto, olhem, vamos ter ainda vários meses com material do ano passado a aparecer aqui na Lâmpada, lado a lado com outro material (a maioria dos contos que aqui forem aparecendo nos próximos meses) lido já este ano. E fora isso, a ver vamos o que acontece.

Enfim...

Li mais do que no ano passado. Não em número de livros, que esse ficou a um de atingir o total de 2015, mas sim em número de páginas. Este, de resto, é o maior desde que comecei a seguir as minhas leituras via Goodreads, há seis anos e, se não tivessem sido os três últimos meses do ano, bastante fracos em termos de leituras, com apenas quatro livros lidos ao todo entre outubro e dezembro, teria batido todos os recordes. Ainda abaixo do que era hábito antes de enveredar pela tradução, é certo, mas significativamente mais do que tem sido o hábito recente. E sem BD.

Dos 38 livros lidos, portanto, foram 33 os livros propriamente ditos, lidos por lazer, dos quais 13 são de autores lusófonos e um tem participação lusófona (embora esse seja em inglês). A parte lusófona está bastante mais bem representada que no ano passado, ainda que continue a ser a minoria.

A lista completa é a seguinte:

1- O Restaurante no Fim do Universo, de Douglas Adams (romance de ficção científica humorística);
2- Os da Minha Rua, de Ondjaki (contos interligados mainstream, talvez memórias de infância);
3- O Messias de Duna, de Frank Herbert (romance de ficção científica);
4- Contos Fantasia, de vários (contos de fantasia e história alternativa);
5- Academia de Vampiros, de Richelle Mead (romance de fantasia urbana juvenil);
6- Atlas das Nuvens, de David Mitchell (romance em mosaicos de ficção científica);
7- Viajantes do Tempo, de Clifford D. Simak (romance de ficção científica);
8- Caim, de José Saramago (romance fantástico);
9- Escola de Mulheres / Dom João, de Molière (duas comédias teatrais, uma delas com elementos fantásticos);
10- Makas da Banda, de Xakolo Monangumba (novela mainstream);
11- Prosa, de Mário de Sá-Carneiro (de contos curtos a romances, na sua grande maioria de horror);
12- A Saga de Alex-9, de Bruno Martins Soares (três romances interligados de fantasia científica);
13- The Heisenberg Mutation and Other Transfigurations, de Steve Redwood (contos de fantasia e ficção científica);
14- A Viagem do Elefante, de José Saramago (romance histórico);
15- 2014 Campbellian Anthology, org. de M. David Blake (contos e excertos de romances de ficção científica, horror e fantasia);
16- Salto no Tempo, de Yves Dermeze (romance de ficção científica);
17- O Verdadeiro Dr. Fausto, de Michael Swanwick (romance de ficção científica);
18- Cada Homem é uma Raça, de Mia Couto (contos mainstream e fantásticos);
19- O Legado de Mrs. Baker, de Maria do Vale Cartaxo (novela mainstream);
20- Abismos do Tempo, de Lúcio Manfredi (romance de ficção científica);
21- A Balada da Vala dos Velhos, de J. P. Simões (conto mainstream);
22- Entre o Corpo e a Rosa, de António da Silva Carriço (conto fantástico);
23- A Cidade da Ciência, de Maurice Vernon (romance de ficção científica);
24- Capitania de São Vicente, de José de Anchieta (relato de viagem);
25- A Guerra é Para os Velhos, de John Scalzi (romance de ficção científica);
26- D. Pedro I e... Último, de Gabriel Bozano (noveleta de ficção científica);
27- Ficções, de Jorge Luís Borges (contos mainstream e fantásticos);
28- E de Espaço, de Ray Bradbury (contos de ficção científica, fantasia e horror);
29- A Abóbada Energética, de Karl-Herbert Scheer (novela de ficção científica)
30- Almanaque Steampunk 2012, org. de Sofia Romualdo, Joana Neto Lima, André Nóbrega e Rogério Ribeiro (contos steampunk);
31- Imaginários 1, org. de Tibor Moritz, Saint-Clair Stockler e Eric Novello (contos de ficção científica e fantástico);
32- Reflexões do Diabo, de João Cerqueira (conto(?) fantástico humorístico);
33- Anthology of European SF, org. de Cristian Tămaş e Roberto Mendes (contos de ficção científica e fantástico)

A acrescentar aos livros li também uma revista. Ainda menos que no ano anterior, onde por sua vez já tinha lido menos que em 2014. Eu tenho um problema com as revistas: ou são em formato de livro, como acontece com a Ficções e com algumas revistas de FC internacionais, ou então, se são em formato grande, dão-me muito pouco jeito. De vez em quando pego numa Bang! e depressa a ponho de lado; há qualquer coisa naquele formato que não me atrai para a leitura. E por isso, as revistas em formato grande vão ganhando pó, sem serem lidas. Um dia terei de fazer um esforço e lê-las duma vez. Enquanto isso não acontece irão aparecendo listinhas destas:

34- Ficções nº 9 (contos mainstream com duas incursões pelo fantástico);

E também li por obrigação laboral. Desta fez foram quatro livros, sendo que um deles foi em português, para entrar no clima da tradução seguinte:

35- O Último Reino, de Bernard Cornwell (romance histórico);
36- The Pale Horseman, de Bernard Cornwell (romance histórico);
37- Hope and Red, de Jon Skovron (romance de fantasia);
38- Fool's Assassin, de Robin Hobb (romance de fantasia)

Quanto a géneros, continuou a predominar a ficção científica, como é hábito, mas, como também é hábito, houve bastante variedade. Este ano até li duas peças de teatro, coisa que quase nunca faço, e um relato de viagem, que é também coisa rara. Mas a maioria foi FC, com um total de 18 livros total ou parcialmente de ficção científica, mesmo que esta por vezes mostre bastantes impurezas.

A qualidade não foi tão boa como no ano passado, mas também não esteve mal. E daí, até talvez tenha sido ela por ela: se é verdade que houve menos livros a atingir posições cimeiras na minha apreciação, também é verdade que houve menos livros de cuja leitura eu tenha saído arrependido.

O melhor livro do ano foi, claramente, O Atlas das Nuvens, de David Mitchell, seguindo-se Ficções, de Jorge Luís Borges, e depois uma série de livros muito próximos, entre os quais talvez se destaque um pouco Cada Homem é uma Raça, de Mia Couto.

Este livro foi, naturalmente, o preferido entre os lusófonos, mas A Viagem do Elefante de José Saramago vem muito perto, com Prosa, de Mário de Sá-Carneiro logo atrás.

Do lado desagradável das coisas, A Cidade da Ciência de Maurice Vernon leva calmamente a palmatoada de pior livro do ano, seguido, bastante acima, por Salto no Tempo, de Yves Dermèze, e pela Academia de Vampiros de Richelle Mead, dois livros que não são maus, são só razoáveis. Curiosamente, ao passo que os lugares de topo são ocupados por livros de contos e um romance em mosaicos, estes cá de baixo são exclusivamente romances. Se eu quisesse disfarçar a minha preferência por ficção curta, estava bem tramado.

Entre os lusófonos, os lugares do fundo vão para Makas da Banda, de Xakolo Monangumba, D. Pedro I e... Último, de Gabriel Bozano, dois livros que também achei meramente razoáveis, e, um pouco acima, O Legado de Mrs. Baker, de Maria do Vale Cartaxo, três livros bastante curtos, por sinal.

E assim se passou mais um ano de leituras. Venha o próximo. Livros não faltam cá por casa. São às pilhas.

sábado, 31 de dezembro de 2016

Lido: A Mulher Gritando

Uma das formas de criar em literatura uma sensação de horror, de pesadelo, é colocar o protagonista a fazer os possíveis por comunicar com os outros e ninguém o entender, seja porque não compreendem mesmo o que diz, seja porque nada consegue dizer, seja porque não querem ou não podem aceitar a verdade do que diz. São frequentemente histórias muito simples, pois a contínua repetição da tentativa gorada de comunicação não se presta a grande complexidade estrutural, mas são também com frequência histórias muito eficazes.

E é isso mesmo que Ray Bradbury faz em A Mulher Gritando (bibliografia), servindo-se também de um outro estratagema que usou em vários contos: a dissociação entre o mundo dos adultos e o das crianças.

Aqui, a protagonista é uma miúda de dez anos que um dia, ao percorrer o terreno baldio atrás de sua casa, ouve uma mulher a gritar e depressa percebe que os gritos vêm do chão. Segue-se uma série de peripécias, com a miúda a tentar convencer os adultos de que está uma mulher a gritar debaixo da terra e ninguém a acreditar, o que acaba por a levar a decidir cavar ela própria, o que é posto pelos adultos na conta de brincadeiras, e termina com um final não muito surpreendente, mas com a sua subtileza. É outro bom conto. Não dos melhores, mas bom.

Contos anteriores deste livro:

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Lido: O Pescador e a Sua Mulher

Uma das coisas que me tem causado alguma surpresa ao ler, lado a lado, estas histórias tradicionais alemãs dos Irmãos Grimm e as portuguesas do Adolfo Coelho é a ausência, naquelas de algo que tem sido muito comum nestas últimas: a lengalenga.

Pois bem, O Pescador e a Sua Mulher muda a feição das coisas.

Trata esta história de um pescador que um belo dia pesca uma solha falante, logo encantada, que promete satisfazer-lhe todos os desejos se ele lhe poupar a vida. O homem é um bom homem, um pachola, que tem por ambição simplesmente viver a vida descansado e não lhe pede nada de especial. Mas a mulher não está pelos ajustes e obriga o marido a ir exigir à solha coisas cada vez mais exorbitantes. E o marido, bem mandado, obedece sempre, mesmo contrariado. A lengalenga está nisto, nas sucessivas viagens entre a casa (ou o palácio, ou o castelo) e o mar onde a solha vivia, nos versinhos sempre iguais que o homem recita para convocar a criatura mágica e na conversa que têm, também sempre igual, antes do desejo ser satisfeito.

Claro que se trata de um conto exemplar, conservador, que pretende transmitir a ideia de que cada um está bem é no seu lugar, sem levantar ondas, sem querer mais do que tem. Nisso parece ser bastante "grimesco". Mas a lengalenga é aqui novidade.

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sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

À atenção das pessoas que me querem enviar coisas...

... e só têm como endereço o meu apartado.

Informo que, a partir de 1 de janeiro, esse apartado vai deixar de ser meu e, portanto, não devem enviar nada para lá. O meu endereço volta a ser só um, o de casa.

Arranjei o apartado porque os CTT privatizaram o serviço de entrega de encomendas em casa e ele tornou-se péssimo (papéis enfiados debaixo da porta do prédio, encomendas que nunca chegavam — talvez por causa disso — etc.), a caixa postal não ficava muito longe de casa e o preço não era muito alto.

Mas começaram por fechar a estação de correios mais próxima de casa, transferindo a caixa postal para o centro da cidade, depois privatizaram os CTT e a primeira coisa que os CTT-empresa-privada fizeram foi subir de surpresa, no fim do ano e muito o preço do apartado. Por fim, o serviço de entrega de encomendas teve algumas melhorias — ao mesmo tempo que o serviço postal normal ia de mal a pior — portanto vou mandá-los pastar.

Em suma: quem quiser enviar-me coisas e não saiba para onde, pergunte-me.

Ah, sim, e claro: viva a iniciativa privada! Nada é mais eficaz e amigo do cidadão do que a iniciativa privada! Empresas públicas? Que horror!

sábado, 17 de dezembro de 2016

O Bibliowiki está de cara lavada

Ó pra ele aqui, tão renovadinho:


Ao fim de dez anos de existência, e para comemorar a primeira década, o Bibliowiki acabou de receber uma reformulação geral da sua página inicial com o objetivo de a tornar mais prática e atraente. A história, que não é tão linear como pode parecer, está contada no blogue do projeto, e as opiniões dos utilizadores são bem-vindas.

De todos os projetos que eu fui desenvolvendo na web ao longo dos anos, este é claramente o melhor. Mesmo estando ainda longe de ser o que eu gostaria que fosse.

Se o ótimo é inalcançável, o chegarmos ao bom já não é mau.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Lido: O Conde Encantado

O Conde Encantado é mais uma destas histórias recolhidas por Adolfo Coelho com um considerável potencial para expansão. Contudo, enquanto na maioria dos casos esse potencial aparece porque a história até resulta razoavelmente bem tal como está mas dá pano para mais mangas, aqui é porque está reduzida ao osso e dá mesmo sinais de talvez lhe faltarem alguns. Ossos, quero eu dizer.

Conta a história da neta de uma velha má que a detestava e fazia tudo para a maltratar, o que a leva a fugir e a arranjar emprego no castelo de um conde. Só que o conde estava encantado e transformava-se em passarinho, o que vai levar a certas peripécias e estas ao desfecho. Há qualquer coisa de Gata Borralheira aqui — algumas ideias, sobretudo — mas a história em si segue caminhos diferentes.

E quando eu sigo "segue" talvez devesse dizer "esboça", pois tudo se despacha em página e meia e há até algumas voltas de enredo que parecem simplesmente aparecer vindas do nada. Pode tratar-se do que resta de uma história complexa depois de sofrer uma degradação razoavelmente intensa ao longo dos séculos. Ou talvez o fenómeno seja outro. De qualquer forma, não é das histórias mais interessantes deste conjunto.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 11 de dezembro de 2016

Lido: Selvagens

Na vinheta Selvagens, Luiz Bras volta a um território híbrido entre a ficção científica e o horror. É um daqueles contos de laboratório e de ideia que a FC tanto explorou ao longo da sua história, focando-se numa experiência baseada em implantes neurológicos que fazem com que os voluntários humanos tenham acesso a todo o fluxo sensorial uns dos outros. O que um faz e sente, todos sentem, acabando por sentir que fazem também.

É ideia que dá pano para mangas, mas Bras resolve-a em menos de duas páginas, mergulhando rapidamente no horror e na loucura. E não, embora este meu "mas" possa levar a crer o contrário, o resultado não é insatisfatório. O conto é bom, forte e eficaz. O facto de me ter ficado na mente uma rede de possibilidades narrativas com base na ideia deste conto não o diminui.

Textos anteriores deste livro:

Lido: Transplante

Transplante é um curtíssimo mas muito eficaz texto de horror, escrito em jeito de poema mas com muito pouco (ou nenhum) lirismo, no qual Luiz Bras conta uma historinha que será tanto mais arrepiante quanto mais os leitores acreditarem na existência de espíritos. E não convém dizer mais porque a eficácia deste texto depende fortemente do constante reajuste de perspetiva sobre a história que está a ser contada que ele provoca no leitor, o que só se consegue alcançar com o mistério e a surpresa. E além disso, este texto sobre o poema já está significativamente maior que o poema.

Textos anteriores deste livro:

sábado, 10 de dezembro de 2016

Lido: A Boneca

A Boneca (bibliografia), de João Ventura, é no essencial um conto de fantasia com alguns elementos de ficção científica — bastante ténues — cuja protagonista, de certa forma, é uma boneca. A história começa num momento especial de uma antiguidade distante, no qual a feiticeira de um povo primitivo prepara magicamente uma boneca que possa ser usada para levar a morte a um tirano que, segundo informações dignas de crédito, se prepara para invadir a região. Mas as tropas do imperador chegam antes de a boneca poder ser usada, e esta fica esquecida, à espera.

Séculos mais tarde, já tudo está mudado, e a aldeia, entretanto há muito esquecida, é alvo de uma campanha arqueológica que acaba por desenterrar a boneca, a qual se mostra em surpreendente bom estado. E por casualidade, ou talvez não, isso acontece nas vésperas de uma nova invasão por parte de um novo tirano.

A ideia é interessante, e o próprio conto também, mas há um problema: o desenlace torna-se demasiado óbvio demasiado depressa. Assim, embora o conto esteja de uma forma geral bem construído e bem escrito, a leitura não é tão interessante como poderia ser porque lhe falta algum mistério que sustente melhor a história.

Contos anteriores deste livro:

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Lido: Makas da Banda

Desde que me lancei na aventura de fazer o Bibliowiki, já vai para dez anos (xiiii!) parte das minhas leituras é determinada pela curiosidade de saber se o livro X inclui fantástico, como por algum motivo me parece poder acontecer, ou se trata apenas de falso alarme. Makas da Banda é um desses casos. Quando surgiram as notícias sobre a iminente falência da Campo das Letras corri para o site da editora e vasculhei-o, tão exaustivamente como o tempo permitiu, em busca de livros que de alguma forma pudessem interessar ao Bibliowiki. A sinopse desta novela de Xakolo Monangumba chamou-me a atenção, amplificada por se tratar de um autor angolano, país de que há escassíssimas notícias sobre produção de fantástico à parte um habitué chamado Agualusa, e encomendei-o.

E sim, demorei a lê-lo. Também é costume.

Afastando desde já a curiosidade: é falso alarme. Existem neste texto algumas piscadelas de olho ao fantástico, mas são arroubos poéticos claramente fantasiosos no contexto da narrativa, que é essencialmente realista, ou então referências mais ou menos oblíquas a certos momentos e figuras, não fantástico propriamente dito.

O livro trata sobretudo de Angola, da sua história e da sua política, tanto pré como pós independência (mais pós), numa narrativa com aspirações poetizantes que vai avançando de episódio em episódio de uma forma que parece ter muito de autobiográfico. Há personagens, sim, há diálogos e essas coisas de que costuma fazer-se a ficção, mas não se nota uma verdadeira vontade de construir personagens ou uma narrativa realmente ficcional, antes esta e aquelas parecem servir sobretudo para transmitir ideias sobre o verdadeiro protagonista do livro: o país em si mesmo e o seu povo.

É frequente encontrar em livros de autores angolanos uma certa busca por uma identidade, uma permanente interrogação sobre o que significa afinal, ao certo, isso de ser angolano. Não é caso único; também se encontra idêntica interrogação em alguma literatura portuguesa. Mas na angolana que tenho lido ela faz-se particularmente premente e, de todos os livros angolanos que já li, este talvez seja aquele em que é mais óbvia, não só, mas também, pela abundância de palavras e expressões em kimbundo, que chegam ao próprio título. Makas são problemas. A Banda, aqui, é Angola.

Para alguém de fora, para os outros lusófonos e até, imagino, para angolanos cujo substrato linguístico seja outro (o kimbundo é apenas uma das duas ou três dezenas de línguas nacionais em Angola, ainda que seja das mais importantes), essa profusão de expressões em kimbundo tende a tornar a leitura algo pesada, o que é incentivado pela propensão de Monangumba para a frase de efeito poético e para o diálogo declamatório. Estas últimas características são coisas que não costumo gostar de encontrar no que leio, e este livro não foi exceção. Por isso, e apesar de lhe reconhecer interesse, particularmente para os leitores mais curiosos sobre Angola, a sua história e as suas gentes, não gostei muito desta leitura.

Este livro, como se viu mais acima, foi comprado.

Lido: O Piquenique de um Milhão de Anos

Eis mais um conto de Ray Bradbury de que é muito fácil falar e que também é muito fácil de avaliar. O Piquenique de um Milhão de Anos (bibliografia) é um excelente conto de ficção científica, um dos grandes clássicos de Bradbury em forma de conto, que eu já tinha lido e comentado aqui na Lâmpada há seis anos e picos (e fora dela há mais tempo ainda; esta foi a quarta leitura que fiz deste conto... e não, não me farto). Ao que escrevi há seis anos apetece-me acrescentar agora que o conto faz este ano 70 anos de idade o que, em termos de ficção científica, é uma eternidade. E é espantoso, um testemunho de brilhantismo, como um conto tão antigo consegue ainda conservar toda a sua força. Bradbury tem alguns contos assim (e pelo menos um romance), e é isso que o eleva ao panteão dos grandes autores de FC de todos os tempos.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Lido: Escola de Mulheres / Dom João

Ler teatro é sempre uma experiência com o seu quê de bizarro: temos as palavras, temos um punhado de indicações cénicas, mas falta-nos tudo o resto. O texto, se visto sob o ponto de vista estrito da literatura, tende a ficar algo coxo. Havendo imaginação suficiente, ou talvez seja mais adequado dizer havendo experiência suficiente de teatro e do que lhe é inerente, calculo que seja possível suprir mentalmente o que falta ao texto, mas isso não invalida que ao texto falte mesmo alguma coisa. Sempre.

Mesmo assim, as duas peças de que se constitui este livro, Escola de Mulheres e Dom João, duas comédias de costumes mais ou menos moralistas, constituíram, cada uma à sua maneira, uma surpresa para mim. Uma por ser quase um texto feminista com mais de trezentos anos, escrito por um Molière que pelos vistos estava bem à frente do seu tempo. Outra por conter algo que não esperava de todo encontrar aqui: elementos claros de fantástico.

No final da leitura, percebi por que motivo Molière é tido como o pai do teatro moderno. Mesmo sabendo eu muito pouco sobre teatro. Mesmo tendo um apreço limitado pela arte (sempre me desagradou um certo artificialismo que parece ser inerente ao teatro). O facto é que, tendo em conta a época em que foram escritas, estas peças são de se lhe tirar o chapéu. E o gosto pessoal que vá dar uma voltinha pelo quarteirão.

Eis o que achei mais desenvolvidamente sobre as duas peças:
Este livro foi rapinado à biblioteca dos meus pais (para onde voltará de seguida).

Lido: Estação Morta

De Maria Ondina Braga julgo que só tinha lido uns contos infantis, na época em que a idade era a própria, e dessas leituras ficou-me na memória sobretudo o nome da autora, portanto ler este Estação Morta foi praticamente uma estreia. Esta história, no entanto, não é uma história infantil. Trata-se de um conto adulto, uma daquelas histórias de veraneio, que se servem da muito comum técnica de arrancar as pessoas aos seus lugares e gestos rotineiros para dar o pontapé de saída em histórias que se pretendem interessantes. Neste caso, estamos perante a história de uma mulher que se aloja num hotel semivazio, algures no norte, perto da praia mas fora de época, e aí é confrontada com os mistérios do lugar e com um homem, bronco, retornado, salazarento, por quem sente um misto de repugnância e atração. Bem escrito, introspetivo, o melhor do conto são as suas subtilezas, suficientes para o arrancar a uma mediania a que a banalidade de cenários e personagens poderiam tê-lo condenado. Não que o arranquem com grande força ou de uma forma muito definitiva. Mas arrancam o suficiente para se terminar a leitura com opinião positiva.

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