sábado, 29 de abril de 2017

Lido: Entre o Corpo e a Rosa

Nada tinha lido do autor monchiqueiro António da Silva Carriço até pegar neste livrinho de apenas 25 páginas mas fechei-o razoavelmente bem impressionado. Às primeiras, Entre o Corpo e a Rosa parece um conto banal, uma daquelas historinhas campestres tão de agrado da vasta corrente ruralista que dominou durante muito tempo a literatura portuguesa. Mas depressa as coisas mudam um pouco de figura. Não que o conto deixe de ser campestre; simplesmente perde um pouco a banalidade, pois um fantástico que vai claramente beber mais ao realismo mágico do que propriamente ao fantástico das bruxas e maus olhados mais comum nessas obras, insinua-se nele como que pé ante pé, cheio de subtilezas.

A história centra-se numa mulher chamada Virgolina, uma mulher misteriosa, com fama de milagreira e curandeira e um apetite sexual mais que saudável. Os homens da zona, a que Carriço chama Barranco do Demo mas talvez não seja exatamente o Barranco do Demo que existe de facto perto de Alferce, na serra de Monchique, dificilmente lhe resistem em vida, mas é depois dela morta que o fantástico se instala a sério, pois os homens parecem perder o tino, enlouquecidos de desejo, enquanto consta na zona a ocorrência de prodígios vários e há mortes misteriosas.

O conto está bem escrito e não é um conto fácil, pois a narrativa não é linear e ziguezagueia para trás e para a frente no tempo, o que acrescenta ao mistério dos ocorridos uma camada adicional de sombras. Por outro lado há alguns pormenores estilísticos (parêntesis que em nada contribuem para a narrativa, só servindo para lhe cortar o fluxo, por exemplo... mas não só) de que não gostei e falta-lhe qualquer coisa para me agradar mesmo a sério, e reconheço que esta parte da avaliação é sobretudo subjetiva. Nem sei bem o que falta. O ruralismo não é muito do meu agrado, é certo, mas creio que não se trata disso. Talvez mais solidez na exploração das relações humanas, que aqui aparecem com uma certa bidimensionalidade. Talvez.

Seja como for, o conto é melhor do que eu esperava antes da leitura. Gostei. Não posso dizer que tenha gostado muito, mas sim, gostei.

Este livro veio da biblioteca dos meus pais.

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