domingo, 7 de maio de 2017

Lido: The Server and the Dragon

Há algumas histórias de futuro distante (ou tão alienígenas) que exigem dos autores uma verdadeira prestidigitação textual para conseguirem arrancar sentido de histórias tão distantes da experiência humana. Prestidigitação é sinónimo de truques, e os principais truques que Hannu Rajaniemi emprega nesta sua história é evocar o imaginário dos dragões para algo que nada tem a ver com esse imaginário... e mesclar a conceitos físicos de ponta (e razoavelmente especulativos, pelo menos alguns) uma história de amor bastante banal.

The Server and the Dragon é no seu âmago uma história de colonização mal sucedida. Uma história de ficção científica de futuro longínquo protagonizada por uma sonda automática avançada (o "server" do título), dotada de inteligência artificial, que chega a um sistema solar extragaláctico e dá os primeiros passos para preparar esse sistema para a chegada dos colonos... que nunca chegam. Por fim, farta de esperar, farta de solidão, a IA decide criar um universo próprio, mas no processo de o fazer é distraída pela chegada de um pacote de informação com instruções para a criação de um ambiente virtual, onde surge um dragão. Fascinada, a sonda mergulha neste ambiente virtual e esquece-se do resto, o que origina o desfecho da história.

Este conto é interessante, ainda que haja nele alguns detalhes que dificultam a suspensão da descrença. Exemplo: o esquecimento é uma falha muito humana; é duvidoso que uma IA tão avançada fosse vítima de tal falha... e sem ela esta história não resultaria de todo, o que a meu ver constitui uma fragilidade de monta. Ou seja, a sensação que fica é que Rajaniemi, confrontado com a necessidade de arranjar personagens capazes de provocar empatia nos leitores, fê-lo em detrimento da coerência da história. É no mínimo arriscado e parece-me que o risco não compensou. Mas apesar de tudo o conto tem interesse, pelo menos para quem conseguir entender a parte cosmológica da coisa.

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