domingo, 30 de julho de 2017

Lido: E de Espaço

Ray Bradbury é geralmente visto como um escritor de ficção científica, mesmo quando o colocam num patamar algo especial entre os escritores de FC (há quem lhe chame, por exemplo, o poeta da FC). Essa designação tem o problema de poder levar o leitor pouco conhecedor a julgar que tudo na obra de Bradbury é ficção científica, o que está bastante longe de ser verdade. Bradbury escreveu FC, é certo, e as suas obras mais (re)conhecidas pertencem ao género (Fahrenheit 451, Crónicas Marcianas), mas escreveu também horror, tanto do verdadeiro como de uma espécie particular de horror doce, centrado na nostalgia da infância e nas brincadeiras de Halloween, que hoje provavelmente se incluiria na fantasia urbana, escreveu também fantasia, alguma da qual se fosse escrita mais tarde e por um escritor latino-americano receberia com toda a certeza o rótulo de realismo mágico, e escreveu também textos que pouca ou nenhuma relação têm com os vários géneros da ficção especulativa e geralmente se reúnem sob a designação de americana, muitas vezes juvenil. E escreveu muitas coisas que se situam algures entre estas várias vertentes da arte de criar histórias com palavras.

Pois este E de Espaço (bibliografia) é, apesar do título, um bom apanhado dessas várias vertentes da arte de contista de Bradbury. Não as mostra a todas, mas mostra a maior parte. Não procura reunir apenas os contos mais extraordinários do autor, mas inclui pelo menos um, talvez dois, a que soma um punhado de outros contos muito bons e muito poucos (talvez mesmo só um) contos abaixo do bom. Não será uma obra-prima mas é uma coletânea muito satisfatória, especialmente tendo-se em conta as datas de produção da maior parte destas histórias, o que permite captar os ecos que nelas existem da Segunda Guerra Mundial, a qual tinha decorrido poucos anos antes.

Sim, porque se é certo que a ficção científica e, em geral, todas as vertentes das literaturas do imaginário, são muitas vezes acusadas de serem escapistas, não é menos certo que essa é uma leitura extremamente superficial, pois o contexto em que são produzidas, seja histórico, seja político, seja mesmo literário ou editorial, marca-as com grande clareza para quem souber ler o que está abaixo da superfície. Mesmo quando as coisas pretendem de facto ser escapistas, contêm informação abundante sobre os contextos histórico e ideológico que são vistos pelos autores como tranquilizadores, o que, indiretamente, informa sobre o que encontram de perturbador nas circunstâncias de que pretendem ajudar a escapar.

E Bradbury não pretende ser escapista, bem pelo contrário.

Eis o que achei dos contos individualmente considerados:

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